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Hieronymus Bosch

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Lembrar de Salvador Dali ou de Badida, quando se olha os quadros de Hieronymus Bosch é quase inevitável. Na sua época os conceitos da psicanálise de Freud ou termos como inconsciente ou surrealismo eram conceitos impensáveis. Bosch nasceu em 1.450 mas, a exemplo de outros gênios deslocados no tempo, foi um surrealista e deveria ter papos íntimos com Freud se o destino houvesse criado essa possibilidade. Mas o destino é muito matreiro e evitou certos confrontos. Como teria sido uma conversa entre Cristo e Moisés? Ou entre o Papa Clemente V, citado na matéria sobre heráldica e o Papa atual? Esses são temas que seriam interessantes de ficcionar. Nem sei se essa palavra existe mas vamos deixar assim mesmo.


Bosch realizou um trabalho cheio de fantasias vindas da sua mente criativa, onde animais são flagrados em atos de sodomia, percebe-se tortura anal em muitas ocasiões e onde, claramente, santos e demônios entram em conflito. A história do artista é confusa e cheia de incertezas. Mesmo as suas telas, grande parte são consideradas de autor incerto, embora os indicadores apontem para ele. Pertenceu a uma ordem religiosa a qual manteve-se ligado por toda a vida e ao mesmo tempo foi apontado como herege pela inquisição da época. Os seus quadros cheiravam a heresia mas alguns clérigos o defenderam. Provavelmente Bosch tinha uma vida em segredo onde as atividades sexuais deviam imperar, onde a libertinagem devia ser a palavra de ordem e uma outra vida moralista e falsa, com a qual se apresentava na maioria dos lugares. Basta olhar os seus quadros para sentir o contraste entre as duas vidas. As dúvidas e incertezas sobre os fatos históricos comprovados permitem esse tipo de conjectura.


No quadro onde Cristo carrega a cruz, os figurantes são nitidamente expressionistas, os seus olhares são marcantes e as faces lembram os expressionistas. Percebe-se a ligeira deformação, as cores fortes e a emoção exagerada. Só que o expressionismo só seria expressionismo no início do século passado, durante o desenrolar da Primeira Guerra Mundial. Bosch era um homem adiante do seu tempo. Certamente sua vida passou muitas vezes pelo risco de acabar na fogueira.


Barcos e velas em pleno deserto e um túnel com sugestões futurísticas espaciais, surpreendem e instigam o pensamento. É bom lembrar que o homem viveu no século XV. O Brasil não tinha sido descoberto e a questão da Terra ser redonda ou plana tinha seguidores ferrenhos de todos os lados. E claro que as imagens espaciais eram impensáveis. Bom, impensáveis mesmo, não eram porque o túnel pintado por Bosch é o resultado de um pensamento fora do seu tempo, mas de qualquer forma, realizado.


O nome de Bosch vem de Hertogenbosch, o pequeno povoado holandês onde nasceu e morreu, aos 66 anos. O artista adotou o nome do lugar e com ele eternizou-se. Foi alcunhado também de criador de demônios e embora sua obra seja teoricamente religiosa, ocupando-se do tema das angústias humanas após a expulsão do paraíso, o fato é que as figuras são muito bizarras, como se originadas de um outro planeta, outra dimensão, outro mundo. Pensou-se de Bosch que estivesse se ocupando de coisas do ocultismo e foi apontado como herege. Mas de fato a sua pintura é carregada de uma beleza que atrai pela análise das situações que retrata, as vezes até de modo divertido e ridículo, as vezes dramático, as vezes horripilante e agressivo. Não é um mundo normal. Uma de suas grandes obras, chamada O Jardim das Delícias, formado por três painéis, sendo o do meio com mais de 2 metros de altura por mais de 8 de largura, é simplesmente uma viagem. Pode-se passar horas examinando cada detalhe e interpretando cada pequena história aí narrada. A obra está no Museu do Prado e é, ao mesmo tempo, deliciosa e angustiante.


Pode-se dizer de Bosch, pelo menos, que é original, diferente. Há um toque de burlesco medieval, de futurístico de nossa época, de expressionismo e surrealismo. Não foge das imagens de bruxas da Idade Média mas trata os santos como coisas do cotidiano, o que não acontecia naquela época. Talvez por colocar figuras de reis, imperadores e eclesiásticos em posições pecaminosas, tenha conquistado a ira de alguns e o respeito e admiração de outros.


Pertencente a Confraria de Nossa Senhora, onde encontra-se registro de suas atividades, embora escassos, fez parte também da Congregação do Espírito Livre, um grupo herético que surgiu desde o século XIII e no qual imperava o intercambio sexual livre como forma de religiosidade. Alias, quem pensa que sexo grupal é coisa moderna, está redondamente enganado. E a mania de racionalizar e justificar todas as coisas através de preceitos comportamentais e religiosos também não é novidade. Na congregação do Espírito Livre os ritos sexuais buscava a recuperação da inocência perdida por Adão ao comer a maçã. Se alguém com um pouco de carisma fundar uma nova religião baseada nesse conceito, tem tudo para virar pastor de um grande rebanho, mas o assunto aqui é outro. Também se afirmou que o artista pintava sob o efeito de alucinógenos mas nada disso foi comprovado. Na verdade, não existem provas concretas de que Bosch tenha pertencido realmente a essa seita ou que tenha consumido alucinógenos de qualquer espécie e todas essas teorias sobre a vida do artista são, de fato, carentes de comprovação. Até mesmo boa parte dos seus quadros são de autenticidade aceita mas não comprovada e portanto, duvidosa.


As cenas de céu e inferno, de fim de mundo e juízo final, caracterizam a obra desse artista, com o julgamento dos homens, santos e demônios em lutas e o castigo para os condenados. Naquela época acreditava-se que o fim do mundo estava próximo e embora, ao longo de toda a história da humanidade, sempre tenham existido profetas apontando para o fim do mundo, na Idade Média isso era uma crença mais generalizada. Em breve o tempo cessaria e teria início, então, a eternidade ilimitada e calma. A morte seria uma mudança. Esse era o ambiente da vida desse artista, onde os mais detalhados registros constam do livro da Confraria de Nossa Senhora. Lá, na página referente ao dia 9 de agosto de 1516, registra-se que foi celebrada uma missa na Igreja de São João, pela alma de Hieronymus Bosch. Foi-se o homem do mundo dos vivos. O artista permanece.


 
   


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