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Lailson de Holanda

Todos os dias ele liga para o jornal mais ou menos na mesma hora e procura
saber se a notícia principal da primeira página do Diário
de Pernambuco está definida. Normalmente isso acontece entre as 6
e 7 da noite e Lailson de Holanda fica
sabendo o que vai estar no jornal no dia seguinte. Normalmente são
notícias políticas ou econômicas mas muita coisa pode
acontecer. E aí começa uma grande corrida. O artista tem que
bolar, desenhar, retocar e dar acabamento, escrever textos e deixar prontinha
uma charge. O jornal tem que receber isso até às 9:30h da
noite, cerca de duas a três horas depois de tudo começado.
Parece difícil? Deve ter dias em que Lailson tropeça em
dificuldades. Deve ficar olhando para o papel, rabiscando, rasgando o
rabisco, tentando outra vez e o tempo correndo. Outros dias a idéia
vem fácil e o traço obedece instintivamente e tudo se arruma
com naturalidade. Faz 25 anos que Lailson de Holanda faz isso diariamente,
repito, d-i-a-r-i-a-m-e-n-t-e, independentemente de dias fáceis
ou difíceis. Fora o mês de janeiro, quando tira férias,
todos os dias está lá presente no jornal nosso de cada dia.
São perto de 9000 charges ao longo desse tempo, um número
respeitável. As vezes um tema permanece muito tempo na primeira
página e exige que o assunto seja explorado de diversas maneiras.
 
É fácil deduzir duas coisas a partir daí. A primeira
delas é que as 9:30h da noite, quando muita gente está indo
para a cama, o cara deve estar fervendo, com a mente em total ebulição
e completamente desperto. A segunda coisa é que precisa ser um homem
muitíssimo bem informado para enfrentar qualquer assunto que seja
o motivo da charge, porque praticamente tudo pode ocupar a primeira página
do jornal e não há muito tempo para pesquisa. E o artista
participa de outros projetos, como o Pindorama, por exemplo, que reconta
a história do Brasil de uma maneira muito peculiar.

"Seria necessário ter um historiador participando do projeto
Pindorama mas com Lailson isso foi perfeitamente dispensável."
A afirmação é de Beth Araruna, que coordena e alavanca
o projeto desde o início. Beth faz projetos culturais de âmbito
nacional e considera que Pindorama foi o seu melhor trabalho. Quem quiser
saber mais é só visitar o seu site. O endereço vai
no final do texto e recomendo pessoalmente.

E Lailson,
a sua maneira, é um historiador do Brasil. Segundo ele próprio,
"a caricatura é o verdadeiro retrato oficial dos homens públicos."
Sendo assim, ele tem sido um retratista do país nos últimos
25 anos e tem contado a história através dos seus desenhos,
de forma irreverente muitas fezes, profundamente filosófica outras
tantas. As charges de Lailson divertem mas muitas vezes instigam o pensamento,
obrigam a reflexão. Nem sempre é bom o humor. Repentinamente
percebe-se que o desenho ultrapassa a crítica e penetra no sofrimento,
no desânimo e na amargura. Há um toque de tristeza em alguns
momentos e uma definição da solidão humana nas coisas
do cotidiano.
Pindorama - a outra história do Brasil, - publicado semanalmente
em encartes do Diário
de Pernambuco, durante 3 meses, aumentou a venda dos jornais em 15% e ficou
na memória do povo. Conta a história de Vasco Cuínas
Del Mangue que era o lavador de convés na esquadra de Pedro Álvares
Cabral. O
personagem foi escalado para ajudar na exploração e acabou
encontrando Jurupari, que encarna o espírito de Pindorama, como os
índios chamavam a região. Jurupari consegue viajar pelo tempo
e aí começa a grande aventura. Vale a pena demais, ler tudo
do início ao fim.
Como definir Lailson? Um desenhista? Um chargista? Um quadrinista, ou historiador,
crítico político, jornalista? Talvez seja tudo isso mas Beth
preferiu considera-lo um artista gráfico. Não sei se o artista
concorda. Procurado para uma entrevista fomos encontra-lo na Espanha, onde
participa do festival internacional de Humor E Quadrinhos da Espanha com
2 exposições -Pindorama-A Outra História Do Brasil
e La Risa de Brazil. Na verdade Lailson já apresentou o seu trabalho
em muitos países e tem prêmios em diversos continentes. No
seu currículo, essas coisas não são novidade. "Para
mim, poder apresentar, neste Retrato Oficial, a face do Brasil que vivemos
nestes últimos 25 anos através de uma seleção
das charges que considero mais representativas desse período, é
mais um privilégio e uma responsabilidade, decorrentes da arte e
do ofício que escolhi. Espero ter sido um bom fotógrafo -
ou pelo menos um bom retratista de instantâneos - e que ao mostrar
estes desenhos possa contribuir para que compreendamos melhor a nossa História
e possamos cada vez mais olhar com bom humor tanto para o nosso passado
quanto para o nosso futuro".

A retrospectiva
desses 25 anos está sendo apresentada a partir de 23 de outubro na
praça de eventos do Shopping Center Recife. Vai lembrar a nossa história
a quem a conhece e ensinar a quem não conhece. Se você quiser
saber mais, visite o site de Lailson. O endereço está no fim
do texto. É divertido e agradável.

Lailson foi o curador do IV Festival Internacional de Humor e Quadrinhos
de Pernambuco e está intimamente ligado a esse evento. Estivemos
lá e conversamos com Laerte,
Glauco, Adão
e Angeli e trazemos
boas lembranças. Representa a Associação dos Cartunistas
no Nordeste e participa de um grande número de atividades. Alem do
mais o cara ainda é músico. Ou seria, se o tempo permitisse
e não houvesse optado por dedicar-se a charge. A banda, de Rock &
Blues, ganhou o nome de The Lailson Blues Band. Talvez, quando ler esse
texto, fique frustrado por dedicarmos tão pequeno espaço a
esse lado que ocupa boa parte do seu coração, mas é
que CyberArtes é voltado para as artes plásticas. Mesmo quando
o músico não é menor do que o artista gráfico.
Barte - Art Gallery
Lailson de Holanda
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