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Marilda di Camargo

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Cheguei no atelier de Marilda di Camargo um pouco antes da hora marcada e fiquei esperando-a. A missão era entrevistá-la e depois escrever sobre a artista no lugar de Rê Rodrigues. Fiquei olhando as coisas no atelier, enquanto esperava. Uma estante com muitos livros organizados e bem cuidados: Expressionismo, Miró, Magritte, Arte Contemporânea, O Imaginário, de Sartre e História da História da Arte, de Germain Bazin, que fiquei com vontade de ler. O atelier é espaçoso, arrumado, agradabilíssimo. Um teclado encostadinho em um canto me pareceu que raramente é usado. Peças antigas, incluindo um telefone que não deve falar e um relógio despertador que deve ter razão apenas duas vezes por dia. Marcava sete e quinze, sabe-se lá desde quando.


Série Mulheres, iniciada em 1996 - A escolha de uma cor predominante, ao invés de limitar, empresta uma força especial.

E muitas telas, naturalmente, mas até aí eu só tinha visto algo como a sala de visita. A oficina mesmo, o lugar onde di Camargo trabalha e se suja de tinta, eu ainda não sabia que existia. De repente, chegou Marilda, uma figura simpática, sorridente, bonita. A conversa fluiu rápida e fácil e conversamos bastante tempo sem muitas perguntas formuladas a título de entrevista. A medida em que ia colocando suas idéias eu ia percebendo que o trabalho dela é aquilo mesmo que ela falava.


Série Poética Indígena, iniciada em 1990 - Brasília foi um marco ainda importante na vida da artista.

A artista conseguiu dar uma forma plástica ao seu pensamento e emoção. O mundo é energético, é criado, reinventado, re-conceituado, se é que a palavra existe. Quando mistura cores e define formas, quase sempre abstratas, está colocando uma coisa emocional, instintiva mas que de uma maneira misteriosa, talvez inexplicável, corrobora o que diz sua racionalidade. Emoção e razão na verdade, sem nem prestarem muita atenção uma a outra, convivem harmoniosamente, sem dominação.

Série Limites e Fronteiras e Série Mulheres - O contraste unido pelo mesmo traço vigoroso que torna impossível passar na frente do quadro sem parar para olhar.

Contou-me que pintou florais por muito tempo e mostrou-me algumas fotografias. Bonitos trabalhos mas apresentou-me como coisa do passado. Também vi fotos de tapeçarias, aquarelas e cajus, com texturas belíssimas e dos quais me falou com mais entusiasmo que os florais. Mas o que importa mesmo é o agora, os últimos 10 anos, digamos assim. Os quadros de Marilda di Camargo são vigorosos e exercem uma atração muito forte. Não sei definir se as formas são casuais ou premeditadas e definidas. Conversamos bastante sobre isso mas ao final ficou me parecendo que todos os trabalhos são uma eterna pesquisa, um constante aprendizado e uma mistura dinâmica e de fórmula indefinida, entre o saber e o imaginar. As séries, diversas, jamais considera encerradas pois a qualquer momento pode retornar a elas para acrescentar e reconstruir. Assim também com os experimentos. Quando trabalhou com o betume pela primeira vez, retirado de um trabalho de asfaltamento no interior de São Paulo, não esgotou a experiência pois a pesquisa nunca é completa e total. Recentemente voltou a usar o mesmo material.


Vocês já se perguntaram porque tantos artistas pintam seguidamente cajus? Da próxima vez que tiverem um caju nas mãos, observem as cores e possibilidades de texturas. O artista rapidamente vê o que passa desapercebido para a maioria. E transporta isso para outros temas.

A artista tem uma sólida formação acadêmica. Graduou-se em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e especializou-se em Desenho Geométrico. Enfrentou uma pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC - São Paulo. Agora freqüenta uma pós-graduação em antropologia e um curso de arte terapia. Não sei onde vai chegar. Acho que ela também não sabe. Ensinou em diversas ocasiões, mas no fim, o que borbulha lá dentro são fantasias, idéias, sonhos, conceitos imaginários. A arte que não é criativa e que não muda a realidade, não lhe parece arte. Radicaliza, nessa hora. A conversa duraria horas se fossemos exaurir o assunto.


Limites e Fronteiras, série iniciada em 2.000 e em plena efervescência hoje. Formas instigantes provocam a imaginação.

Como tantos artistas, já viveu aquela fase de insegurança e questionamento do valor de sua arte. Tinha receio de apresentar-se. Hoje está completamente a vontade com essa qualidade de artista e com sua arte. Aceita-se. Ama-se. Está satisfeita consigo. Ministra aulas para alunos do Pró Criança. Inovou quando ensinou em escola, no tempo em que se achava que aula de arte era bagunça. Organizada, encerrava a aula com tudo limpo. Atualmente, às terças-feiras à tarde realiza uma belíssima tarefa sagrada. Dedica esse período até o início da noite a total e livre criatividade. Qualquer pessoa pode participar. Veja detalhes em cursos. Adorei a idéia, mas a melhor surpresa ainda estava por vir.


Ainda Limites e Fronteiras - O que temos aqui? Máquinas, ruínas, seres vivos intergaláticos? Uma realidade criada pela imaginação.

Subimos um andar e fomos para a oficina de trabalho. Pinceis delicados, tubinhos de tinta enfileiradinhos e arrumadinhos, pequenos recipientes para misturas. É assim que você está pensando? Era assim que eu pensava também, mas não é nada disso. Mesas enormes e latões de tinta e massa como se fossem ser usados por um pedreiro. Os pinceis são também pesados, grosseiros, de trabalho de construção. Ficou rindo da minha surpresa e mostrou-me então o outro lado do atelier, a parte produtiva, a fábrica, a oficina. As telas, quase sempre muito grandes, são pintadas sem a armação, com a lona solta, fixada na parede ou no chão. Só depois de pronto, manda esticar e emoldurar. Pude verificar como o trabalho é feito de forma enérgica, forte, e talvez por isso mesmo, transmita tanta pujança e vitalidade. Marilda di Camargo também é assim, como suas telas. Foi ótimo havê-la conhecido e facílimo escrever sobre ela.


Cidades invisíveis e o Rio São Francisco, como são vistos pela visão transformadora de Marilda di Camargo, uma visão que supera a realidade porque não mostra só o fato, transforma-o em emoção, interpretação, opinião.

Marilda cuida do seu trabalho de forma integral. Os contatos dever ser feitos diretamente com a artista através de artecamargo@bol.com.br ou pelos fones (81) 3474.9364 ou 9967.1723


 
   


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