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Luciano Pinheiro

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Luciano Pinheiro - A primeira coisa que tenho a dizer sobre Luciano é que ele é uma enciclopédia. A história da arte em Pernambuco está toda na memória do menino, até porque vivenciou, participou e escreveu uma parte considerável dessa história. Hoje com 56 anos, participou de praticamente todos os movimentos e grupos de trabalho importantes formados por artistas em nosso estado, entre os anos 60 e 90. Durante a entrevista, que não pode ser chamada exatamente de entrevista, contou do seu tempo na Guaianases. Contou da sua experiência pessoal e de como a oficina foi invadida pela chuva e tiveram que trabalhar com água pelos calcanhares para entregar serviços encomendados. Mostrou-me xilogravuras e litogravuras feitas por ele e por outros do grupo. Para mim, esse dia foi um dia enriquecedor.


O atelier - Paredes cheias em constante mutação

"Os grupos se formavam por uma questão de sobrevivência. Era a união para sobreviver. Na medida em que os participantes conseguiam abrir espaços e iam se consagrando, os grupos se desfaziam." Contei-lhe que em conversa com Maurício Castro, que encontrei casualmente na Fundação Joaquim Nabuco, ele disse-me que era preciso resgatar a história desses grupos pois pouco havia registrado. Maurício sugeriu que cuidássemos disso através de CyberArtes. Tarefa pesada, mas, quem sabe? Luciano tem que ser ouvido nesse resgate. Alem de uma enormidade de coisas guardadas na memória, tem desenhos, pinturas, livros e anotações sobre todos esses movimentos. E fala deles com a intimidade de quem participou e conservou as amizades conquistadas. Luciano é partidário dessas uniões. "Quem somos nós, se estamos sós?" Está escrito em seu atelier, em fortes letras vermelhas no meio de uma tela, como uma representação da sua união aos grandes nomes da arte.


Luciano - Cores que aquecem o coração

Mas Luciano não é um historiador. Ele é um artista com toda uma vida dedicada a arte. Atualmente pinta aquarelas e imensos quadros que se interligam. Podem ser colocados uns ao lado dos outros em diversos ângulos que sempre ocorrerá uma continuidade, apesar de cada quadro ser completo por si mesmo. "Já tive quadros colocados de cabeça para baixo em catálogos oficiais. Agora procuro pintar de modo a que isso não tenha importância e assino nos quatro cantos do quadro. Estou sempre na posição certa." E nos explica como trabalha com a aquarela.



Arquivo de imagens - Trabalhos complementares

"Uso o tempo como parceiro. Aguardo que a tinta seque e o tempo exerça a sua ação para dar um passo adicional no quadro." Diz isso e nos mostra uma série que está preparando agora, com trabalhos prontos e em andamento. "Aqui, essa forma é inteiramente intencional. Já aqui eu escolho a cor e determino uma tendência mas não determino tudo." Para mim ficou claro que uma certa curva foi proposital mas que o tamanho de certa mancha foi apenas orientado mas não determinado. Compreendo o que o artista quis dizer.


Momentos que contrastam - Cada um com sua força própria e individual

As telas são quase sempre grandes e as cores vivas. Muitas delas são apenas cores e formas sem significado mas Luciano consegue uma harmonia nesse jogo de cores e formas que corrobora o que ele afirma. "A arte é a organização do caos." Enquanto fala, e desfila idéias atrás de idéias de uma maneira enciclopédica e inesgotável, vai nos mostrando o seu acervo. Litogravuras antigas e atuais, o que tem bastante. "A xilogravura tem a vantagem de que ficamos com as matrizes. Tenho poucos quadros porque é uma emissão única e fico só com poucas coisas que reservo para mim." Um pequeno e especial detalhe que não posso deixar de registrar foi que, ao observar suas xilogravuras, uma intitulada "A Bela e a Fera", despertou minha memória. Lembrei de um poema que fiz e que recebeu o mesmo título. Para minha surpresa e alegria, fui presenteada pelo artista com sua bela e agressiva obra.


O que significa cada cor e cada forma? Luciano é uma ebulição de emoções.

De uma estante organizada retirou um acervo precioso de trabalhos seus e de outros artistas e mostrou livros maravilhosos que foi citando e explicando na medida em que os assuntos se sucediam e na medida em que nos impressionava com o seu conhecimento sobre tudo o que se refere a arte e artistas. Conhece meio mundo e fala das pessoas com a intimidade de quem é amigo. Mostra fotografias, pinturas e xilogravuras. Fala do seu tempo em Paris, proporcionado pelo premio de Viagem ao Exterior , a que fez jus no VI Salão Nacional de Artes Plásticas de 1982, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Tudo isso aconteceu de uma maneira simples e agradável como uma conversa de intimidade mas ao mesmo tempo tão informativa como uma aula.


O atelier - Energia pulsante em paredes tombadas pelo Patrimônio Histórico

"Fala-se que é muito difícil viver de arte e é mesmo mas, antigamente era muito mais, pois não existiam programas de governo e nenhum incentivo a cultura." Mesmo assim, a vida profissional de Luciano foi toda dedicada a arte. Desse amor, brotou todo o seu conhecimento, que remota aos artistas de antes da sua geração e permanece atualizado com a turma mais nova de performáticos e de arte contemporânea. Desse amor brotou também o seu trabalho, cheio de simbolismos e cores alegres como a vida.


Luciano Pinheiro - Pedaços de vida espalhados pela casa

A tarde da entrevista foi de chuva intensa, dessas que tem acontecido ultimamente. Fiquei um pouco molhada enquanto esperava alguém abrir o portão de ferro. Uma senhora apareceu pulando a janela com a naturalidade de quem faz isso todos os dias e eu cheguei a pensar que iria entrar na casa pulando a janela também. Entrei rindo comigo mesma e com o surrealismo da cena. Levei mais chuva para subir até o atelier por uma escadinha em caracol que não admite gordos. Na saída, enfrentei uma tempestade e cometi o erro de parar para comer uma tapioca no Alto da Sé, onde é a casa do artista. A lona da barraca desabou e descarregou sobre mim o que deve ter sido uma tonelada de água de chuva. Fiquei completamente molhada mas a alma permaneceu aquecida pelas cores quentes e belas das aquarelas de Luciano.


 
   


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