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Ana Adelaide Galvão
Ana Adelaide
Galvão
Quando Paulo Costa
nos convidou para conhecer o trabalho de Ana Adelaide
Galvão, a nossa posição foi de cautela, como
em todas as entrevistas para o CyberArtes. Entramos no apartamento onde
a artista mora com o marido e duas filhas e toda a cautela desmoronou. Um
quadro enorme fez a apresentação do trabalho de Ana e nos
deu a garantia de que estávamos diante de uma artista de verdade,
digna de figurar na galeria de CyberArtes ou de qualquer outro catálogo
que se possa imaginar. Ana Adelaide Galvão vale pelo seu trabalho,
vale muito, e se fosse para escolhermos um grupo de artistas que representasse
bem Pernambuco, certamente ela faria parte desse time.

Os temas de Ana são bem característicos de nossa geografia
praieira. Ana interpreta conchas, caramujos, peixes, cavalos marinhos
e cenas do mar. Não que retrate exatamente a nossa fauna e flora.
Ela tem uma enorme coleção de imagens de peixes e conchas
que pesquisou ao longo do tempo e que tem origem em todos os lugares.
Ana fica olhando aquilo tudo, passeando em uma viagem visual e de repente,
escolhe o seu personagem, o seu motivo. Aí começa o processo
de criação e o que resulta é um peixe ou uma concha
que não retrata a natureza mas interpreta aquilo que a artista
vê. Vê e ama. Ana tem uma coleção de conchas,
verdadeiras, que vem juntando pelo mundo todo, comprando aqui e ali, por
preços que não sei dizer quais são. Mostrou-nos algumas
dessas peças que impressionam, rebuscadas na forma, raras talvez.
Certamente muito raras para pessoas leigas no assunto.

Ficamos por ali olhando as telas, todas muito bonitas, até que a
artista nos recebeu. Simpática, bonita, extrovertida começou
a falar de sua coleção de conchas e a mostrar as suas pesquisas
com tal entusiasmo que contagiou a todos nós. O acervo de imagens
é grande e as idéias fluem com facilidade. Contou histórias
dos seus quadros, falou da maneira como pinta e não foi necessário
fazer muitas perguntas. Depois nos serviu uvas sem caroço, especiais
para exportação. Deliciosas, principalmente por não
ter a aporrinhação dos caroços, que é o chato
de se comer uvas. Fiquei perguntando coisas só para demorar mais
e ter mais tempo para as uvas. Pensei em botar algumas no bolso mas me contive.
Se estivesse com Rê Rodrigues, que me faz ficar mais moleque, quem
sabe isso houvesse acontecido. Descobri depois que são produtos da
Timbauba Agrícola, uma empresa que produz frutos especiais para exportação.
As uvas são verdadeiras obras de arte mas de uma arte que não
tratamos habitualmente aqui. Vamos nos restringir a Ana Adelaide e esquecer
as uvas um pouco.

Quando, duas semanas depois, Rê Rodrigues viu o trabalho da artista,
tive o cuidado de guardar na memória os seus primeiros comentários.
"Que viagem! Me apaixonei! Quero conhecer essa pessoa" e foi falando
o que sentia e é com base nisso que escrevo agora. A arte de Ana
Galvão é vibrante como ela. As cores se misturam de uma maneira
harmoniosa, mesmo quando forçam um contraste. Os peixes criam uma
vida própria e parece que podemos observa-los por dentro, vendo a
energia que vem daqueles animais. O que será que a artista sente
quando cria um peixe que de fato não existe mas que mostra uma força
tão grande que parece estar ali? Esse é o seu mundo indecifrável
no qual ninguém penetra. Todo artista tem esse pedacinho de mundo
só para si. De uma concha real, Ana cria um ser que se assemelha
mas não tem a pretensão se ser igual porque procura ser diferente,
único, interpretativo. As manchas de tinta dão ao objeto,
concha ou peixe, uma dimensão própria. É arte, é
criação, é fantasia e não um estudo de anatomia.
Ela tem livros onde fala da profundidade onde cada concha pode ser encontrada
e em que lugar do mundo. Fala disso com alegria e vivacidade mas é
com as tintas que faz explodir o seu amor pelo tema. No mundo de Ana, existem
espécies que não ocorrem na natureza.
Os quadros
de Ana são belos, calmos e alegres. Como retrata seres que vivem
em um mundo mágico e distante, imagino que são recriados e
nascidos do fundo da sua alma. Pintando com cores claras, a artista consegui
um resultado quase perfeito. Olho seus cavalos-marinhos e sinto toda a sua
vivacidade. Estão observando algo que só existe no mundo de
Ana. Seus peixes de cores fortes e marcantes, me fazem viajar por outros
planetas pois acho que só os encontraria em um mar de mistérios.
Eles são de uma transparência cósmica. Acho que a artista
tem nas veias um grande talento e no espírito a proteção
de Iemanjá a rainha do mar.
A família
é parte central de sua vida. A conversa vai e volta e passa vez por
outra na casa, no marido, nas filhas. Sente-se carinho e zelo. E sente-se
entusiasmo pela sua arte, ainda bem para todos nós. Capaz de outros
tipos de pintura, nos mostrou outros estilos de quadros. Mostrou por mostrar,
porque abordamos o assunto mas, não é o que lhe faz mover-se.
Os motivos do mar é que são sua força. Ana mergulha
pelos arrecifes, em busca de seus peixes e conchas. A artista olha para
esses animais com visão de raio X e nos mostra como eles são
por dentro de uma forma estranha, que não sei explicar bem. Ela nos
mostra o interior sem contudo abrir o exterior. Os caramujos e conchas declaram
a sua anatomia, desnudam-se, apresentam-se inteiramente, sem contudo serem
violados ou abertos. Quadros em uma só cor, variando a tonalidade,
não são monótonos contudo. Ao contrário. Mostram
como um artista pode tornar vibrante e eloqüente uma composição
onde ele mesmo colocou limites nos recursos. O efeito é belíssimo
e nos lembrou Jesus
Cardenete.

Outros quadros mostram cores efusivas, formas livres da geometria e mais
ligadas a anatomia e nos vem a indecisão do que é mais bonito,
do que é mais próprio da artista. Respostas difíceis
e desnecessárias. O trabalho de Ana Galvão é para ser
visto, sentido, vivido e apreciado no todo e em detalhes. De tudo a artista
tem fotografias, sempre bem tiradas e guardadas organizadamente. Alias,
fotografia é outra arte que domina e curte mas nem falamos sobre
isso.

Ana
Adelaide Galvão é daquelas pessoas de quem se fala e fica
a impressão de que não se foi capaz de dizer o mais importante.
O texto fica parecendo pequeno e incompleto. É um pouco frustrante
isso porque mostra apenas que não fomos capazes de trazer a tona
aquilo que realmente recebemos da pessoa, a emoção que capturamos.
Rê passou um tempão enorme olhando os quadros e dizendo coisas
muito mais significativas mas que não podem ser colocadas em um texto
sem perder o vigor. "Olha isso aqui!" ou "Que viagem".
Como vou colocar esse entusiasmo no texto? Como vou colocar no texto a expressão
dos olhos e o tom da voz?
Teremos outro encontro com Ana Adelaide Galvão antes da publicação
dessa matéria, para os arremates finais, para podermos ver outra
vez os seus quadros e discutirmos a escolha das imagens. Estamos torcendo
para que apareça outra vez um prato de uvas. E fica aqui o agradecimento
a Paulo costa por nos haver descoberto o que já deveríamos
saber faz tempo.

Contatos com a artista pelo número (81) 9974.6431 ou anadelaide@hotmail.com
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