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Paulo Acencio



Paulo Acencio
Paulo Acencio de Araújo Barbosa é, no mínimo, um desafio. Nem sempre nos é dada a oportunidade de escrever sobre um artista que nos impressiona tanto pela obra como pela personalidade. A maneira afável e simples como recebeu nosso contato, iludiu no princípio. Levamos algum tempo para descobrir na pessoa o mesmo que já havíamos descoberto na pintura, um cérebro efervescente de idéias sobre um mundo real e ao mesmo tempo mágico e carregado de fantasias. Paulo Acencio dificilmente terá nascido nesse planeta. Deve ser proveniente de uma raça do mundo dos sonhos fantásticos que só por um acaso, foi deixado em Juazeiro, na Bahia, onde estivemos recentemente olhando o São Francisco transbordante e o acender das luzes de Petrolina com o cair da noite.


Caravelas, astronautas e poderosos corcéis – convivência inusitada

A forma como Paulo Acencio percebe o mundo e o coloca na tela é uma soma de muitas emoções, onde se misturam figuras do folclore nordestino com imagens puxadas da Idade Média européia. Os cavalos são aqueles mesmos das disputas e torneios da Idade Média, poderosos, escolhidos entre as raças maiores pela necessidade de carregar cavaleiros com armaduras e proteção para o próprio corpo. São animais quase tanques de guerra, arfando com o esforço extremo do galope com muito peso. Mas no comando, ao invés de cavaleiros de armaduras, figuras do folclore ou criações fantásticas da mente em ebulição de Paulo Acencio. De onde vem tudo isso? Da sua vida nos sertões nordestinos, dos livros de história que leu ao longo do caminho que o levou até São Paulo, onde vive atualmente. Dos sonhos com o seu planeta de origem, sem que se saiba onde fica isso.


Imaginação e fantasia – que planeta é esse?

Essa tendência de misturar tempos e lugares, parece mesmo uma determinação. Caravelas portuguesas, daquelas que chegaram ao Brasil de cinco séculos atrás, misturam-se com viajantes em trajes espaciais, tudo junto, flutuando em um universo imaginário, capaz de conter todos esses mundos. Lembrei de Lailson de Holanda Cavalcanti, quando pegou o poema de Camões e escreveu/desenhou os Lusíadas 2500, onde caravelas exploram os confins de um universo e recontam, de forma inusitada no século XXVI, a saga portuguesa do descobrimento.


Imaginação sem limite – Paulo Acencio

Paulo Acencio tem um projeto em desenvolvimento, de um viajante fantástico que faz releituras e interferências com figuras e fatos da história da humanidade. Nesse projeto o artista se coloca como personagem e participa de diferentes maneiras das cenas que vai criando, como personagem principal ou contracenando, metamorfoseando-se com figuras da história e misturando realidades onde os limites são apenas os da imaginação. No caso de Paulo Acencio, equivale a dizer que os limites são inexistentes.


Símbolos e sugestões – defesa de uma idéia

De formação inicial absolutamente clássica, adquiriu técnica que o permite viajar por todos os estilos. Assim, aprendeu a pintar retratos e considera esse um aspecto relevante no universo do artista. Impressiona também nessa tarefa e um retrato que fez, “in memória”, do seu primeiro mestre, Romano Abedante, mostra bem o vigor de sua técnica e o poder dos seus pinceis. O retrato nos fala de quem foi a pessoa e transmite a emoção de uma personalidade. Não é uma coisa fácil de ser realizada mas essa capacidade que tem Paulo Acencio de reviver essa personalidade está presente em toda a sua obra, quando retrata a si mesmo, quando cria figuras fantasiadas, animais ou coisas. Todos parecem ter vida própria.


Cada personagem com sua vida própria - técnica

Sobre a passagem dos navios negreiros singrando os mares, Castro Alves disse que “nesse Saara os corcéis o pó levantam, galopam, voam, mas não deixam traços.” Os corcéis de Paulo Acencio, corcéis mesmo ou navios, singram por mares espaciais também sem deixar traços e marcas do tropel desabalado, ao sabor de ventos tempestuosos. Alem de cavaleiros a guia-los para combates violentos, alguns, com mais sorte, são montados por mulheres desnudas de grande beleza. Nesse momento a arte de Paulo Acencio é cheia de sensualidade, quase erótica. Quase? Melhor cada um julgar por si. Essa mistura de passado, presente e futuro, essa mistura de personagens de diferentes mundos nos remete a uma dimensão muito alem daquelas pelas quais trafegamos normalmente. É o realismo fantástico de Paulo Acencio.


Sensualidade e erotismo – idéias efervescentes

O processo criativo é complexo e sobre ele nos fala o próprio artista: “Antes eu crio mentalmente as figuras e suas posições no espaço; faço um esboço mental. Trabalho os modelos através de fotografias, assim a execução fica mais livre; não gosto de modelos me observando o tempo todo. Ato contínuo, vou à tela depois de preparada e inicio um esboço mais elaborado. Após a secagem da pintura do primeiro plano eu parto para o fundo, ou cenário. Esse cenário é composto sempre de uma paisagem onírica, sem referências e altamente intuitiva, é onde as figuras ficarão flutuando no espaço; após a secagem desse cenário eu volto à figura do primeiro plano e dou acabamento.”


Paulo Acencio – um artista para o nosso tempo

Paulo acha que já nasceu com pinceis na mão e até onde lembra sempre gostou de desenhar e pintar. Embora faça frequentemente apresentações em público e pinte para mostrar como se faz, não gosta da presença de ninguém no ateliê, enquanto trabalha. Talvez esse gosto pela solidão no trabalho lhe ajude a viajar pelos mundos fantásticos de onde tira sua temática. Certamente não é assim o tempo inteiro mas no momento da criação o artista, pelo menos esse, prefere não ter a participação de agentes que possam destruir ou inibir a sua fantasia. Assim foi como percebemos esse cara.

Paulo Acencio
paulo@acencio.com
www.acencio.com

 

 

 


Por Ronaldo Carneiro Leão – surrealista
E Rê Rodrigues – fantástica

   
 
 
 

 

 

 

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