(nº 375)

JAN VAN EYCK

  • Essa matéria foi anteriormente publicada na edição 131

Os precursores da Escola Flamenga vieram de Borgonha e caracterizam-se por uma técnica excepcional. Filipe, O Audaz, Duque de Borgonha, estabeleceu uma forte aliança entre Borgonha e Flandres e deu um forte incentivo a arte, atraindo e patrocinando artistas de todas as formas. Isso no final dos Anos 1300 e início dos anos 1400. Filipe, O Audaz, foi portanto contemporâneo de Filipe, O Belo, para mim o mais notável rei de França. O sucessor de Filipe, O Audaz, chamava-se Filipe, O Bom. Naquela época Filipe, Carlos, Luiz, Branca, Isabel e alguns outros nomes, eram muito comuns e repetidos. As vezes a sistemática repetição dos nomes dificulta identificar quem é quem e compreender a história desse período. Coube a Filipe, O Bom, dar oficialmente emprego a um pintor de nome Jan Van Eyck. Com Eyck surgiu a Escola Flamenga e ao mesmo tempo teve o seu apogeu. Isso tudo era ali entre a França, os Paises Baixos e a Alemanha. A geografia política é hoje bem modificada.


A Anunciação e a A Crucificação - escola flamenga

Eyck inventou a tinta a óleo e, surpreendentemente, parece que já nasceu sabendo como explorar todo o seu potencial. Não houve um desenvolvimento gradativo das técnicas de pintura a óleo. Eyck já chegou com uma técnica primorosa. Depois a técnica declinou, pois os sucessores de Jan Van Eyck não conseguiram manter a sua qualidade primorosa, o detalhamento e o foco perfeito em todas as profundidades, proporcionalidade dos tamanhos de acordo com as distancias e dos objetos entre si, aspectos que caracterizam a arte Flamenga. Os temas eram normalmente de inspiração profana e a técnica, muito apurada. Não havia ainda os estudos sobre perspectiva, mas Eyck trabalhava isso muito bem, talvez de forma inconsciente.


O Casamento de Arnolfini - quadro polêmico

É impossível falar de Jan Van Eyck sem citar o seu quadro mais famoso e mais discutido em todo o mundo. O Casamento de Arnolfini. O quadro mostra detalhes com objetos que nada teriam que figurar em uma cena de casamento e sugerem uma simbologia onde não se consegue um acordo absoluto, havendo opiniões de todo tipo sobre o significado de cada símbolo. Um candelabro, com uma única vela acesa em um ambiente onde havia abundante luz solar sugere significados misteriosos para a existência daquela luz complementar. Laranjas na janela sugerem para uns uma pureza inerente a cena do casamento e para outros são maçãs representativas do desejo e da sensualidade. O mais interessante é a imagem refletida no espelho, que mostra testemunhas do casamento que não estão no quadro, por conta do ângulo de visão. Uma das testemunhas seria o próprio Jan Van Eyck. Infelizmente CyberArtes não dispõe de nenhuma imagem onde se possa perceber esse detalhe e não nos foi possível ampliar a partir da imagem do quadro como um todo sem perder a nitidez.


Cardeal Nicolo Albergati - esboço e conclusão

Nesse quadro tão debatido, uma outra coisa chama a atenção. Imitando um espírito meio moleque o artista escreveu no espelho "Jan Van Eyck esteve aqui - 1434". Por que será que fez isso? Por que será que colocou um cachorro onde não deveria existir, laranjas em um local improvável e uma única vela acesa em um castiçal? Certamente esses fatos permanecerão para sempre no mundo das especulações sem que jamais possamos ter certeza do pensamento do autor e de suas motivações. Eyck incitava os seus companheiros para que pintassem realisticamente, interpretando verdadeiramente o mundo como ele era, pessoas, plantas, casas, paisagens. A idéia era um registro mais verdadeiro das cenas, com técnica apurada e procurando dar vida ao que fosse retratado. Nasceu daí o que se convencionou chamar escola flamenga porque todos do grupo falavam essa língua. Jan Van Eyck foi, pois, o seu criador e ao mesmo tempo expoente máximo, junto com Rubens, muitos anos depois.


Jan Van Eyck - detalhamento e técnica

O artista usou e abusou de temas religiosos e profanos. Aqui retratava cenas da vida de Cristo e mais adiante rompia com todas as barreiras religiosas e permitia-se a licenciosidade. Claro que tudo hoje nos parece inocente, nesse tempo de sexo explícito e detalhado na TV e onde Madonna fala em "paisagem interna" e pensa em imagens útero adentro. Naquela época, porém, a escolha de temas que não fossem exatamente dentro dos conceitos da Igreja já era, de uma certa forma, uma transgressão, mas a escola flamenga teve essa característica. Até hoje aquela região permanece, digamos assim, um pouco avançadinha. Alguma coisa genética? Possivelmente, mas isso é só especulação de nossa parte e não deve ser levado muito a sério.


Inovação no mundo da arte - pintura a óleo

É curioso como de certa forma o pintor supera a câmara fotográfica. No quadro onde uma mulher aparece no interior de uma catedral, todas as partes da catedral estão perfeitamente focadas. Uma câmara fotográfica não conseguiria isso em uma construção daquele tamanho. Escolhido o foco, as partes mais distantes, ou mais próximas, sairiam do foco. O pintor retrata a realidade melhor do uma fotografia, como diria Michela Mansuino que já foi destacada em CyberArtes como artista da semana e que entende disso como poucas pessoas, ela que é capaz de superar também as melhores câmaras fotográficas com o poder dos seus pincéis.


Melhor do que uma máquina fotográfica - Jan Van Eyck

Jan Van Eyck foi um inovador. Pela sua liderança foi criada uma das mais importantes escolas da pintura. Dele também surgiu a criação da tinta a óleo, como você pode ver na sessão de curiosidades dessa semana. Sua técnica impressiona e, passados quase seis séculos, seus quadros permanecem admiráveis e fascinantes.









Por Rê Rodrigues - pintando com acrílica
E Ronaldo Carneiro Leão – Sem pintar